Descubra o motivo pelo qual os pirarucus presenteados a Lula se tornaram um dilema na Granja do Torto.
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Descubra o motivo pelo qual os pirarucus presenteados a Lula se tornaram um dilema na Granja do Torto.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu recentemente um presente de cerca de 20 pirarucus, peixes nativos da Bacia Amazônica, e optou por colocá-los no lago da Granja do Torto, residência de veraneio da Presidência da República, em Brasília.

Os peixes foram doados pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e passaram a conviver com jabutis, patos e outras aves que habitam o lago.

O que era para ser um gesto simbólico acabou se tornando um problema.

O pirarucu é considerado um dos maiores peixes de água doce do mundo, podendo atingir até três metros de comprimento e pesando cerca de 200 quilos. No entanto, no lago presidencial, os pirarucus começaram a se alimentar de outros animais, principalmente filhotes de patos recentemente introduzidos na área.

De acordo com relatos de deputados que estiveram em um jantar com o presidente, Lula mencionou que precisou intervir porque os peixes estavam atacando os outros habitantes do lago. Alguns pirarucus, inclusive, foram servidos durante o evento.

Símbolo amazônico… e também paradoxo ambiental

O pirarucu, maior peixe de escamas de água doce do planeta, é um dos principais ícones da Amazônia e, em diversas partes da região Norte, é alvo de medidas de conservação devido ao risco de extinção local.

No entanto, fora de seu habitat natural, o mesmo animal tem causado desequilíbrios ambientais e tem sido considerado uma espécie invasora em diferentes rios do Brasil.

A situação na Granja do Torto ilustra esse paradoxo: uma espécie protegida em uma região do país pode representar uma ameaça ecológica em outra.

Espalhamento pelo Brasil

Um estudo realizado pelo Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná, divulgado em 2023, revelou que o pirarucu já foi introduzido em 230 localidades brasileiras.

No rio Madeira, em Rondônia, por exemplo, o peixe é nativo apenas abaixo da antiga cachoeira de Teotônio, próximo a Porto Velho. Acima da barragem da usina de Santo Antônio, a espécie não era encontrada naturalmente e, ao se propagar, passou a ser classificada como invasora.

Pesquisas indicam que o pirarucu ocupa o topo da cadeia alimentar e não evoluiu em conjunto com as espécies locais desses ambientes. Isso faz com que atue como um superpredador, impactando as populações de peixes nativos.

Levantamentos na Reserva Extrativista do Rio Cautário identificaram centenas de indivíduos, com uma reprodução estimada em centenas de milhares de filhotes por ano, o que está associado à redução de espécies como jatuarana, pacu e jaraqui.

Como ele foi parar onde não existia

A presença do pirarucu em áreas fora de sua ocorrência natural não ocorreu naturalmente, mas sim devido à ação humana.

Pesquisas apontam que exemplares foram retirados da região de Iquitos, no Peru, na década de 1970, e levados para criadouros no Sudeste. A partir de escapes e cheias que inundaram os criadouros, os peixes se espalharam por diferentes bacias hidrográficas, chegando à Bolívia e aos rios do Norte do Brasil décadas depois.

A introdução de um predador desse porte em ambientes que não estavam preparados para ele aumenta o impacto inicial da predação e pode resultar na extinção local de espécies.

Presença já registrada em outras regiões

Casos semelhantes têm sido observados em diferentes estados.

No Espírito Santo, por exemplo, a captura de um pirarucu de 65 quilos em uma lagoa de Linhares chamou atenção para a presença da espécie em um ambiente fora de seu habitat amazônico.

O peixe possui características que facilitam sua adaptação, como a capacidade de respirar ar atmosférico e sobreviver em águas com baixo teor de oxigênio, aumentando seu potencial invasor e dificultando o controle populacional.

Manejo e legislação adaptados

Diante dos impactos, os órgãos ambientais passaram a adotar estratégias específicas de manejo.

Na Reserva Extrativista do Rio Cautário, equipes ambientais e comunidades realizam contagens periódicas para mapear a distribuição da espécie e avaliar medidas de controle. Dados preliminares indicam redução populacional em áreas onde a pesca foi autorizada como ferramenta ambiental.

A legislação também precisou ser ajustada:

– Onde o pirarucu é nativo → pesca proibida e proteção legal

– Onde é considerado invasor → captura autorizada para controle

Um dilema da conservação

Esse caso evidencia um dos grandes dilemas ambientais do país: proteger uma espécie não pode ser dissociado do ecossistema no qual ela está inserida.

O pirarucu, gigante sagrado dos rios amazônicos, pode ser simultaneamente vítima da degradação em seu habitat natural e causador de desequilíbrios quando introduzido em ambientes onde nunca deveria estar.

E foi exatamente esse contraste que transformou um presente presidencial em um problema ecológico, político e até gastronômico na Granja do Torto.